Hoje terminei de editar uma postagem sobre um russo com alma de brasileiro. Ele está meio esquecido atualmente, também já foi-se a era dos bons editores de revistas e jornais. Então só nos resta a saudade. Sou um grande admirador de Bloch e sua história. Espero que gostem do conteúdo e que assim como eu, se tornem fãns desse grande brasileiro. Até a próxima!
Adolpho Bloch, foi um gráfico, editor e empresário ucraniano naturalizado brasileiro. Só que mais que isto, "seu Adolfo", como era carinhosamente chamado, foi um pai extremoso para todos aqueles que dele necessitaram e que de algum modo recorreram ao seu auxílio para sobreviver a tantos períodos difíceis da história de nosso país, um deles inclusive foi a terrível ditadura militar, que assolou o país durante cerca de 25 anos, de 1964 a 1985. Acerca desta sombria página de nossa história democrática, o escritor Carlos Heitor Cony ressaltou o humanismo de Adolfo Bloch para com todos os reprimidos da ditadura, no texto Adolpho Bloch e a Repressão:
"Agora, quando MANCHETE celebra 45 anos de permanência semanal no mercado, gostaria de lembrar Adolpho Bloch e sua capacidade de ser grande em todos os momentos. Nascido na Rússia e naturalizado brasileiro, ele correu sério risco de ter cassada sua cidadania pelo regime militar. Motivo da ameaça: sua fidelidade a Juscelino Kubitschek, já em momento algum deixou de contar com o seu apoio.
(...) A relação entre JK e Adolpho já faz parte da nossa história. Contudo, continua ignorado o seu desempenho como empresário da imprensa nos anos mais duros da repressão, quando dezenas de jornalistas ficaram impedidos de exercer a profissão.
Outros jornais e revistas, discretamente, também absorveram alguns dos malditos, mas não aqueles que, segundo as autoridades da época, "tinham contas a ajustar com tribunais e cadeias". Foram esses, justamente, que só encontraram o abrigo em Adolpho Bloch. Ele só se preocupava em saber se o elemento em causa era de fato um bom profissional. Daí em diante comprava a briga, adotava o excluído como uma espécie de filho. Nao se limitava a dar emprego. Dava o carinho, que em alguns casos se estendia à família do perseguido." (Publicado em edição especial Manchete 45 anos, 1997, pag. 254.) Cony, traçou perfeitamente a personalidade carismática de Adolfo para com todos os perseguidos por aquele regime totalitário e terrível.
De Kiev ao Rio
Adolpho Bloch, uma biografia de sucesso
Adolpho Bloch nasceu em Jitomir, pequena cidade da Rússia banhada por seis rios, à época então com 100 mil habitantes. Era uma bonita cidadezinha com florestas e muitos campos de trigo em volta. Era o ano de 1908.
Durante a Revolução Russa de 1917, a família Bloch, então composta por 17 pessoas, começou a enfrentar dificuldades, privações e o horrendo fantasma que persegue os pobres, indefesos e ofendidos: a fome. Tais dificuldades vinha do fato da família Bloch ser de estirpe judaica. Adolpho Bloch migrou com sua família para Kiev. No ano de 1921, a família Bloch não suportando mais perseguições e dificuldades, decidiram partir em busca de melhores condições de vida, embarcaram então no Navio D'italia em 1921, aportaram no Rio de Janeiro, apenas no ano de 1922. Passaram 9 meses no porto de Nápoles, Itália. 1922 foi um ano simbólico, singular para o Brasil, dois eventos importante marcaram o ano: a Semana de Arte Moderna e o Centenário da Independência.
O Pilão
Os Bloch chegaram ao Rio de Janeiro de 1922 trazendo apenas um pilão espremedor de especiarias. Isso explica o título de sua biografia lançada na década de 1980, intitulada O pilão. Entretanto não pretendiam fixar moradia no Brasil, Adolpho relata em Manchete 45 anos: "(...) Juntávamos dinheiro para comprar as passagens que nos levassem aos Estados Unidos. Mas a alegria de viver no Brasil foi tomando conta de nós. Um dia, o dinheiro reservado para as passagens serviu para comprar o nosso primeiro Ford Bigode do Mestre-Blatgé. E assim podíamos participar das batalhas de confete e, durante o carnaval, do corso da cidade, que ia da Avenida até o Mourisco, no final de Botafogo." A família Bloch passou a investir no ramo com o qual já trabalhavam na Rússia antes de virem ao Brasil, o ramo gráfico. Em 1923 compraram uma simplória impressora manual para imprimirem o jogo do bicho. Aquelas seriam as primeiras experiências tipográficas do menino Adolpho.
O boêmio carioca
Em 1940, o jovem Adolpho Bloch era um frequentador da vida boêmio do Rio de Janeiro daquela época, amante dos carnavais e da boemia carioca, trabalhava na Rio Gráfica do Doutor Roberto Marinho. Frequentava o Grêmio Recreativo Kananga do Japão, que mais tarde em 1989 o inspiraria a criar a sinopse da novela Kananga do Japão ao lado de Carlos Heitor Cony. Personalidades políticas e sociais adoravam a companhia de Adolpho. Foi nessa época que cultivou suas melhores amizades e que levaria para o resto de sua vida.
A primeira rotativa off-set, o prédio da Frei Caneca, o início da construção de um império
Mais tarde, viria a escrever sobre as primeiras impressões no Rio e o início da vida de gráfico, editor e empresário:
"A nossa gráfica teve vários endereços: Mem de Sá, 285 (lá eu conheci a Irmã Paula); Constituição, 38 e, depois, Visconde da Gávea, 26. Foi nesse endereço que compramos a primeira off-set e iniciamos a construção do prédio da Rua Frei Caneca, 511. Estávamos às vésperas da Segunda Guerra Mundial.
No dia 1 de Setembro de 1939, quando li no Correio da Manhã que os tanques da Alemanha haviam invadido a Polônia para ocupar o porto de Dantzig, e que os poloneses estavam reagindo com a cavalaria, disse para mim mesmo: "Já vi esse filme, em 1920, nas ruas de Kiev."
E foi naquele ano que inauguramos a nossa primeira sede própria, na Rua Frei Caneca, um prédio moderno que até hoje está funcionando. Nos fundos, junto ao morro de São Carlos, tiramos 50 mil metros cúbicos de terra e ali erguemos um edifício de seis andares. E lá ficamos até 1968, quando nos mudamos para o Russel, 809.
Ao mesmo tempo, compramos os terrenos em Parada de Lucas, boa parte deles do editor José Olympio. Custaram 2 milhões de cruzeiros em vinte promissórias de 100 contos cada uma. José Olympio é um cavalheiro. Deu-nos a oportunidade de comprar outros terrenos ao lado e neles construímos o nosso Parque Gráfico, um dos maiores da América Latina.
O Parque Gráfico de Parada de Lucas, um dos maiores da América Latina
Adolpho Bloch e a primeira máquina gráfica de Bloch Editores.
"Aqui se imprime Manchete". Parada de Lucas, um dos maiores e mais modernos Parques Gráficos da América Latina. Um colosso da mídia impressa.
Edifício Manchete, projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer, muito amigo de Adolpho Blocho. Da Frei Caneca para o Russel 809, Bloch Editores deu um salto extraordinário.
1952: nasce a revista Manchete, que desbancaria o Cruzeiro
No livro Aos troncos e Barrancos/ Como o Brasil Deu no que Deu, Darcy Ribeiro registra, no ano de 1952:
"Adolpho Bloch lança Manchete, que deslumbra o público. Queria é desbancar O Cruzeiro com um jornalismo fotográfico colorido, moderno, dinâmico e ousado. Desbanca."
A revista Manchete foi por muitos anos uma referência no mercado editorial brasileiro e também internacional. Sobre a criação da revista, Adolpho relata:
"Nesse tempo, a nossa rotativa trabalhava a semana toda imprimindo revistas infantis para a Brasil-América, do Adolfo Aizen, e para a Rio Gráfica, do Dr. Roberto Marinho. Eu tinha três dias de folga nas máquinas: sábado, Domingo e Segunda-feira. Sempre sonhara ter uma revista semanal que não dependesse das encomendas. Os acontecimentos eram históricos e eu queria participar deles. O mercado de revistas, no Brasil, era dominado pelo O Cruzeiros, dos Diários Associados. Fui visitar a nova sede construída pelo Dr. Assis Chateaubriand, na Rua do Livramento. E verifiquei que a rotativa estava num andar e o setor dos cilindros em outro. Não compreendi aquela disposição e percebi que, com inovações técnicas e editorias, poderia conquistar o mercado.(...) Em 1951, numa reunião da qual fazia parte o meu primo Pedro Bloch, imaginava uma revista do tipo da Paris-Match, daí surgiu o título MANCHETE. Comprei novas máquinas e instalei a redação na sede da Rua Frei Caneca.
(...) Naquele mesmo ano inaugurou-se a TV Tupi. A Rádio Nacional ainda era o principal veículo de comunicação do país. Foi nesse quadro que a Manchete surgiu em Abril de 1952. No início dos anos 50 foram lançadas grandes revistas em todo o mundo e eu as acompanhava de perto. Costumava dizer que o princípio da felicidade consiste em trabalhar naquilo que se gosta - e eu gostava de trabalhar no meu ramo. O primeiro número da revista não me agradou e comecei a lutar pelo seu melhoramento - e essa luta não parou até hoje.
23 de Abril de 1952 - Primeiro número da Revista Manchete
Manchete número 1, saiu em 23 de Abril de 1952, um dia de meia-estação, a temperatura oscilando entre 28 e 22 graus, tempo nublado, passando a estável. Em São Paulo chovia. A capa era a bailarina do Teatro Municiapal Inês Litowski, posando ao lado de uma carruagem. Naquela quarta-feira, era dia de São Jorge, o Santo guerreiro.
O nome da Manchete - Pedro Bloch
"(...) Tudo isso como intróito de como surgiu o título da revista Manchete.
Um dia, Adolpho Bloch, meu primo, me aparece em casa e, com enorme emoção, diz: - Eu quero fazer uma revista.
Pensou que eu ia ficar espantado, mas achei naturalíssimo que um homem, com sua visão que tinha, na época, atualizado a sua empresa em artes gráficas, quisesse criar uma revista. E continuou:
- Você pode dirigir.
- Não, meu caro. Eu não entendo nada de como se faz uma revista. Posso escrever artigos. Para a direção ficaram muitos joranalistas de valor.
De fato. Os nomes que vieram a dirigir a revista eram de profissionais do maior grabrito. Adolpho, sempre, queria tudo do melhor.
Mas antes disso, numa de minhas passagens pela gráfica antiga, da Frei Caneca, ele me leva à sua mesa e diz:
- Olhe. Estamos quebrando a cabeça para encontrar um nome para a revista. Você tem alguma sugestão?
- A revista vai ser de reportagens, não é?
- Sim.
- Reportagens nacionais e internacionais.
- De que tipo?
- Tipo Match.
Pusemos no papel o nome Match.
E como quem resolve um problema de combinação de letras, me saí, na hora:
- Só pode ser MANCHETE.
Adolpho pula com entusiasmo: - Isso! Não se discute mais! Vai ser MANCHETE, que diz tudo."
"Comecei a compreender um pouco do jornalismo quando do suicídio de Getúlio Vargas"
"Só comecei a compreender um pouco de jornalismo quando do suicídio de Getúlio Vargas em 1954. A capa já estava impressa, era do brigadeiro Eduardo Gomes, tradicional adversário do presidente. Na manhã de 24 de Agosto, numa terça-feira quando Lourival Fernandes me telefonou, dando a notícia do suicídio, eu tive de imprimir nova capa com o presidente Vargas. À tarde a edição foi para as ruas e à noite já estava esgotada. No ano seguinte, outra lição: Carmen Miranda morrera nos Estados Unidos, veio ser sepultada no Brasil. O enterro foi num sábado, com grande acompanhamento e emoção popular. Não podia haver dúvida: a capa da semana seria ela. Aconteceu, que, no domingo à tarde, a boate Vogue pegou fogo. Dois homens, em desespero, atiraram-se do prédio onde funcionava a boate. A tragédia abalou o Rio. Tive de mudar a capa, trocando o enterro de Carmen Miranda pelo incêndio do Vogue. A edição se esgotou no mesmo dia.
Capa da revista sobre o suicídio de Getúlio de Vargas. 24 de Agosto de 1954.
Adolpho Bloch e sua amizade com Juscelino Kubitschek, lealdade para a vida inteira
" Depois da morte de Vargas vieram as crises políticas de 1955. Havia muito assunto em todos os setores e as vendas aumentavam a cada semana. O ex-governador de Minas Gerais, Juscelino Kubitschek, foi eleito presidente da República. Eu tinha muita simpatia por ele, mas não o conhecia muito bem. Era um homem que costumava realizar aquilo que prometia. E durante sua campanha eleitoral ele garantiu que cumpriria suas 30 metas de Governo. Num de seus comícios, em Jataí, um popular perguntou-lhe se, eleito, o candidato cumpriria integralmente a constituição. O cidadão então perguntou se Juscelino cumpriria o dispositivo da Constituição que previa a mudança da capital da República para o Planalto Central. Juscelino já havia elaborado seu programa de metas e não pensara no assunto. Mesmo assim, sem vacilar, garantiu que, se eleito, transferiria a capital da República para o Planalto Central.
(...) A partir desse instante, Brasilía transformou-se em sua Meta-síntese.
Eu estava com um problema, pois havia prometido ao Embaixador Negrão de Lima, chefe da campanha eleitoral de JK, que, eleito o presidente, eu daria 20 mil cartazes enormes com slogan 50 anos em 5. Eu havia tirado esse slogan de um discurso de Jk, feito numa pequenina cidade do interior. Jornais, revistas e televisão criticavam o famoso slogan. Eu desejava me explicar ao presidente que a responsabilidade dos cartazes era minha.
Fui procurá-lo no Catete. Encontrei-o na cozinha, comendo de uma marmita que viera do Palácio Laranjeiras com o seu almoço. Ele ficou feliz ao me ver. Perguntou pela minha saúde. Disse-lhe: "Presidente, esta campanha diária contra o senhor, feita pela imprensa, rádio e televisão, está sendo causada pela minha confiança no seu governo. Fui eu quem mandei imprimir e colocar cartazes em todas as principais cidades brasileiras. "JK deu uma gargalhada e respondeu: "Então, Bloch, você acha que nós vamos fazer o Brasil vaminhar 50 anos em apenas 5 anos?"
Eu acompanhei o sorriso dele e a partir daquele dia ficamos amigos inseparáveis.
"MANCHETE E BRASÍLIA CRESCERAM JUNTAS"
(...) Em 1958, acompanhado do nosso diretor Dirceu do Nascimento, fui procurar o Coronel Affonso Heliodoro, que me fez a entrega de numerosas fotografias da construção da cidade. Com elas, editei um número especial de MANCHETE, que esgotou 200 mil exemplares em apenas 24 horas.
A televisão ainda engatinhava e eu pensava:"Quantas pessoas estão sabendo o que se passa no coração do Brasil? 50, 100, 150, e o restante dos 70 milhões de habitantes?" (Esta era a nossa população na época.) Foi assim que Brasília e Manchete cresceram juntas.
(...) Durante a construção da cidade fiz questão de inaugurar o primeiro escritório jornalístico da nova capital. Quando o lago artificial encheu, eu mandei o Murilo Melo Filho, que era o nosso diretor local, uma lancha com o bilhete:"Não faça economia. Por falta de relações públicos, os judeus perderam Jesus Cristo. E um homem desses não se perde.
O Presidente me pediu que não faltasse à inauguração de Brasília. Foi a festa mais bonita que já assisti. A meu lado, o teatrólogo Joracy Camargo vibrava. Também a meu lado, o ator Silveira Sampaio criticava pequenos detalhes das cerimônias. Eu sentia o coração inundado de alegria. Foi naquela festa que pela primeira vez vesti casaca. O Presidente, quando me viu no Alvorada, veio em minha direção, dizendo:"Bloch, você não podia faltar a esta festa!" Trazendo o material da reportagem para a redação, o meu editor Justino Martins examinou com o seu olho todas as fotos e me observou:"Tchê, você não podia estar usando esse sapato com furinhos no couro, ele não combina com a casaca.
ACONTECEU, VIROU MANCHETE
A revista Manchete acompanhou os principais fatos nacionais e internacionais. Desde a construção de Brasília a chegada do homem a Lua em 21 de Julho de 1969. MANCHETE era uma revista reconhecida pela qualidade gráfica e editorial, principais marcas de seu dono.
Adolpho Bloch foi internado no hospital da Beneficência Portuguesa, em São Paulo, para tratar de problemas cardiovasculares: embolia pulmonar e disfunção da prótese da válvula mitral do coração.
Na madrugada do dia 18 para o dia 19, ele precisou ser operado, entretanto não resistiu a cirurgia e veio a falecer no dia seguinte: 19 de Novembro de 1995 aos 87 anos, não teve filhos. Deixou a esposa Ana Bentes Bloch, com quem vivia desde 1980. As Empresas Bloch passaram ao controle de seu sobrinho, Pedro Jack Kapeller que de tudo fez para salvá-la da falência, infelizmente o entusiasmo de jaquito com a televisão deu no que deu: a Rede Manchete de Televisão, fechou as portas em 1998 e a sua crise culminou com a falência do Conglomerado Bloch no ano 2000. Em 1998 foi inaugurada a Escola Técnica Adolpho Blochcom, localizado no Bairro do Maracanã, Rio de Janeiro. A Escola Técnica Estadual Bloch é a única escola pública de Comunicação da América Latina.
(Fonte: Wikipedia Livre)
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Excelente material! Parabéns. A família Bloch com certeza vai gostar deste seu rico material. Adolpho Bloch cada vez mais lembrado em vídeos, sites, livros e materiais diversos.
ResponderExcluirObrigado. Sim, Adolpho era uma grande alma. Deus o tenha !
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